Cientistas devem ser responsáveis pela divulgação científica?

+ Indicação de canais de divulgação científica

Já faz um tempo que vejo publicações na internet que criticam cientistas geralmente em termos de: 1. Não saber “explicar” sua pesquisa para leigos (tem uma foto bem famosa de uma “tia da limpeza” lendo um cartaz desses de congresso científico); 2. Não fazer a divulgação de suas pesquisa para o público; 3. Usar jargões científicos em suas falas; entre outros…

Acredito que estes questionamentos estejam relacionados à crise de confiança na ciência. Em 2018, 35% dos brasileiros disseram não acreditar na ciência; 75% afirmaram que quando “ciência e religião discordam, escolho a religião”. Apenas 13% dos brasileiros tem “muita confiança” na ciência. (Pesquisa Wellcome Global Monitor 2018', da Gallup). Essa crise não se limita ao Brasil, existem movimentos globais de anti-vacinação e terraplanismo em países desenvolvidos. Disso, surgem as críticas anteriormente listadas, que no fim do dia culpam o próprio cientista pela crise atual de falta de confiança na ciência.

Pra mim, esse discurso não faz sentido, e esta foi a motivação principal para a escrita deste texto. Mas porque não faz sentido?

Existe muitos pesquisadores que não são bons comunicadores e não possuem capacidade de síntese para explicar a leigos seus trabalhos. E são, ainda assim, ótimos pesquisadores. Imagine alguém que trabalha com linguagem matemática em sua pesquisa,que tem demonstra matematicamente sua pesquisa. Essa pessoa gasta horas e horas do seu tempo trabalhando em linguagem matemática, se acostuma com ela, relaciona sua pesquisa principalmente a ela. Qual a facilidade desta pessoa para explicar sua pesquisa para uma pessoa sem escolaridade, que mal sabe somar? Os textos científicos demandam precisão e são lidos por um público qualificado e conhecedor do tema, então, é possível que o pesquisador consiga dominar esta escrita de precisão, mas não tenha capacidade de simplificar a explicação para um público leigo, e muito menos fazer uma síntese da mesma.

Quando se inclui a necessidade de ser bom comunicador pra ser pesquisador, estamos perdendo ótimos pesquisadores.

2. A “tradução” da pesquisa para o público leigo pode gerar uma perda considerável de precisão, que resulta em uma explicação genérica.

Faz parte e é necessário que se crie uma linguagem específica para cada área de conhecimento. Isso mostra, inclusive, a maturidade da área. Se faz necessário por uma questão de PRECISÃO. O significado para certos termos são definidos dentro da área e assumem um significado específico nela, que pode não ser o mesmo fora dela. Isso facilita a leitura dos textos científicos. Se eu não usar os termos já definidos na área, para cada termo que eu apresentar, teria que escrever sua definição o que torna a leitura árdua, cansativa, e os textos infinitamente maiores.

Você aprende até a escrever “possivelmente gera o efeito x” no lugar de “gera o efeito x” porque, no segundo caso, precisaria ter evidências suficiente de que realmente gera o efeito x; enquanto no primeiro, eu posso afirmar que os “dados indicam a possibilidade de gerar o efeito x”. Ou seja, só de incluir o “possivelmente” na frase, isso significa “possivelmente gera, mas ainda não temos dados suficientes pra afirmar”. Isso é precisão na linguagem, de maneira a reduzir possíveis interpretações. A inclusão de um termo já elimina a necessidade de uma longa explicação, o que é desejável, especialmente porque este termo pode não ser o tema central do artigo, e porque reduz o tamanho do texto (artigos costumam ter limite de páginas, palavras ou caracteres). Mas o que isso tem a ver com a “tradução”?

Em alguns contextos, a simplificação de TERMOS ou da IDEIA GERAL gera uma PERDA de SIGNIFICADO e PRECISÃO suficiente pra não transmitir a ideia inicial, resultando em uma coisa genérica que se aplica a um trilhão de pesquisas. Em outros momentos, por trás de uma definição y , podem existir existir diversas outras definições x e relações de causa e consequência, ou premissas, necessárias pra entender aquele ponto que se pretende definir. Por exemplo, um pesquisador que afirme: “Estou tentando criar um processo de separação da molécula x da molécula y”. O pesquisador precisa explicar o que é uma molécula, o que é uma separação, e, para compreender de fato a pesquisa, seria necessário conhecer as moléculas x e y, se não, essa definição se aplica a um trilhão de pesquisas por aí. Quantos pesquisadores estão por aí tentando separar moléculas? E nesse caso, se a tia da limpeza perguntar: “E pra que serve?”, é totalmente possível que a pessoa responda “Não sei”.

3. Nem toda pesquisa científica tem uma aplicação óbvia ou uma utilidade clara.

Em pesquisa aplicada, explicar o que se faz pode ser bem mais fácil, porque a aplicação fica mais próxima da realidade da pessoas. Outras pessoas podem ser mais fáceis de explicar porque seus termos estão no imaginário popular, como empreendedorismo, por exemplo. Porém, quanto mais técnica e específica uma pesquisa é, bem como mais básica, mais difícil pode ser explicar a pesquisa e, principalmente, sua aplicação. Em pesquisa aplicada é fácil: “Estou criando um novo medicamento, um novo plástico, um novo concreto, etc.” Agora vamos pra pesquisa básica: “Estou tentando criar um processo de separação da molécula x da molécula y”. Um dia, vi uma apresentação de um composto que foi criado para combater um tipo de câncer comum em crianças, que se utiliza de uma série de processos de separação, entre outros, para ser criada. Ou seja, muitos pesquisadores no passado inventaram processos de separação de moléculas que hoje permitem a criação deste composto.

Então, olhando isoladamente, a pesquisa de 1 pessoa pode não ter aplicação ou parecer não ter sentido, mas a inovação, as grandes descobertas científicas vêm no conjunto, na totalidade das pesquisas. Não adianta controlar 1 a 1 as pesquisas. Tem que dar condições, recursos e liberdade para a EXPERIMENTAÇÃO CIENTÍFICA. É daí que vão sair as inovações. Muitas grandes descobertas foram até mesmos feitas ao acaso.

Diversas inovações foram resultado da combinação de centenas de anos de diferentes pesquisa básicas que não tinham aplicação prática quando realizadas, mas foram úteis décadas ou centenas de anos depois de sua descoberta. A utilidade da pesquisa pode vir (ou não vir) apenas no futuro.

4. A ideia de que toda pesquisa precisa ser ÚTIL para quem “paga” vem de uma lógica de otimização e de eficiência na pesquisa científica alocar melhor o dinheiro público, o que é louvável, mas nem sempre faz sentido.

É possível tentar direcionar a pesquisa científica, e aplicar melhor o dinheiro público, fazer isso em certo nível, incentivando pesquisas em áreas estratégicas pra região/país, por exemplo. Mas sempre haverá uma parte que vai vir do interesse e curiosidade do pesquisador, e não de uma demanda específica. Haverá pesquisas que apenas serão úteis no futuro, quando eu você, leitor, já estivermos mortos. E haverá também as que não serão. Porque descobrir COMO NÃO FAZER e O QUE NÃO FAZER também é parte da ciência! Também é resultado científico.

Do meu ponto de vista, como Engenheira de produção, fica muito claro porque não é possível otimizar toda a ciência pra ser produtiva. Porque otimização e aumento de produtividade vem apenas quando temos um processo BEM DEFINIDO e REPETITIVO. Pesquisa científica é imprevisível demais, especialmente a mais básica, pra se criar um processo otimizável. Na verdade, cada a pesquisa científica é um projeto, um empreendimento temporário, que cumpre um determinado objetivo. Porém, muitas vezes não é possível nem determinar o escopo deste projeto a priori. É ao longo da execução que se descobre. Portanto, ela precisa ser flexível, até mesmo para ser interrompido sem entregar o resultado desejado. Caso seja entendido como um projeto otimizável, com capacidade de prever todo o escopo e a atividade no princípio, o resultado pode ser uma pesquisa que já nasce morta, que se forçou a seguir por um caminho que ao longo da execução já se mostrada errado.

Outro ponto é que processos de otimização não geram INOVAÇÃO RADICAL/DISRUPTIVA. Gera apenas inovação incremental. Se pesquisamos apenas o que podemos prever, planejar e otimizar, certamente estaremos escolhendo as pesquisas que tem o menor risco e, com isso, menor inovação. A pesquisa científica é uma atividade que pode ter alto risco, mas esse alto risco pode ser traduzir em grandes descobertas para a humanidade.

Então oque eu quero dizer disso tudo? É CONFIAR NA CIÊNCIA, mesmo que certas pesquisas individuais não tenham uma contribuição óbvia. No conjunto, a ciência funciona. E vocês tão ai vivos, imunizados, alimentados e com seus celulares e notebooks pra provar que funciona.

5. Existe uma confusão geral entre fazer DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA e FAZER CIÊNCIA.

No Brasil existe pouco investimento em divulgação científica. A falta de educação em geral faz também com que as pessoas não compreendam a ciência e seu papel, e não consigam compreender os resultados dela que estão no seu dia a dia. Isso gera uma visão errônea de que o cientista fica torrando dinheiro público fazendo coisas inúteis e falando bonito pra outros cientistas. Pra se combater isso, precisa sim aproximar a tia da limpeza da ciência e mostrar a importância da ciência na vida dela, mesmo que ela não enxergue a importância na sua pesquisa especificamente. Mas não necessariamente isso é função DO CIENTISTA.

Quando o cientista usa seu tempo DIVULGANDO sua pesquisa, transcrevendo aquela linguagem específica e precisa para a linguagem popular, ele não está usando esse tempo pra FAZER PESQUISA, que é a sua função principal. Fazer pesquisa científica nesse país já é difícil demais e demandante demais. Pós-graduandos em 6x mais chance de desenvolver doenças mentais, sabia? (Eu poderia, inclusive, passar dias explicando as razões que eu consegui identificar pra isso). O pesquisador em que saber escrever de maneira precisa pra publicar no periódico, para pessoas altamente qualificadas e ainda traduzir isso pra linguagem simples de país pouco educado?? Não seria exigir do pesquisador (sem recursos com pressão de publicação de alto nível) que ele seja um super-homem?

Existe uma área do jornalismo só dedicada à divulgação científica, pessoas que se especializam em fazer essa “tradução”. Existem publicações na internet e em papel que cumprem o papel de divulgação. Temos páginas no Facebook, Instagram e Podcast (incluí uma lista ao final do texto). Basta procurar. Mas a tia da limpeza vai PROCURAR isso se ela não entende o que é ciência? Será q ela sabe ler ou sabe o que é podcast? A tia que trabalha no campus tem acesso à acadêmicos, mas e quem não tem? E quem não conhece sequer uma pessoa com nível superior? O pesquisador tem que ir atrás dessa pessoa pra mostrar sua pesquisa? Bater na porta das pessoas domingo de manhã pra levar a palavra da ciência?

Sim, é importante desmistificar a ciência. É possível e útil divulgar o próprio trabalho pra quem está próximo, ou até mesmo na rua, pra desmistificar a visão do pesquisador/cientista para o grande público. Mas isso sozinho não resolve. Só colocar mais pressão e responsabilidade no pesquisador. Sabe outras medidas que também seriam úteis? Incluir no currículo escolar. Financiamento pública pra desmistificar a ciência pro povão através dos canais acessíveis pra eles. Colocar na novela, na Ana Maria Braga, etc. Existem várias outras maneiras possível de criar essa conscientização científica e dividir a responsabilidade com a faculdade, o governo, o estado, as escolas, e os próprios pesquisadores. Não faz sentido jogar a responsabilidade unicamente no pesquisador.

6. Então o cientista NÃO DEVE fazer divulgação científica?

Claro que pode. Mas deve ser uma escolha dele. É possível criar incentivos incentivos da faculdade, que forneça capacitação e meios para divulgação, desde que desonere o mesmo de outras atividade, e que recompense essa atividade. Não se pode simplesmente exigir mais uma tarefa, que resulte em prejudicar a própria pesquisa ou ter que usar o tempo livre do pesquisador para isso. Também não adiantar forçar as pessoas ou punir quem não faz. É preciso mudar os incentivos. Se a avaliação do pesquisador estiver atrelada a publicação em períodos apenas, qual incentivo ele tem para fazer divulgação científica, que seria um esforço a mais não recompensado? Devemos tomar cuidado também para que o pesquisador não se dedique puramente à dedicação científica e pare de fazer ciência. Ou, pelo menos, que nem todos façam isso. É preciso encontrar um equilíbrio aqui, de maneira a estimular e valorizar a divulgação científica, sem prejudicar a própria atividade científica, já precária nestes país.

Concluindo…

Sim, eu acho útil e necessária a discussão de não ficar só dentro da bolha da ciência, com nossos jargões científicos e acadêmicos, se comunicando apenas entre cientistas. Precisamos sim de melhorar a divulgação científica, mas quando jogamos toda a culpa na academia e na ciência, isso só serve à narrativa oposta. Só serve pra desqualificar a ciência e pra reforçar a narrativa de que a ciência e o pesquisador são desperdício de recursos públicos. Isso acaba por fortalecer um discurso anti-científico, enquanto tenta defender a divulgação científica. É preciso também investigar a origem deste discurso anti-científico, de propagação de medo e de fake news, que em investigações recentes já estão sendo conectadas a empresas que lucram com o medo da população ao oferecer soluções milagrosas, pseudocientíficas. Se não lutarmos também contra as fake news, ficaremos aqui fazendo divulgação científica, competindo com os anti-vacinação, por exemplo, confundindo ainda mais a pessoa leiga.

Segue a lista de Páginas e Podcasts de divulgação científica prometida:

Existem também muitos canais no Youtube, porém, como eu quase não consumo esse tipo de conteúdo em vídeo, acabei não fazendo esta lista. Posso incluir no texto se alguém fizer essa curadoria.

Páginas no Instagram de divulgação científica:

https://www.instagram.com/nuncavi1cientista/
https://www.instagram.com/cienciausp/
https://www.instagram.com/ciencia_carioca/
https://www.instagram.com/cnpq_oficial/
https://www.instagram.com/ciencia_hoje/
https://www.instagram.com/ciencianautas/
https://www.instagram.com/penseciencia/
https://www.instagram.com/mmciencia/
https://www.instagram.com/iqciencia/
https://www.instagram.com/falandodeciencia/
https://www.instagram.com/mulheresnacienciabr/
https://www.instagram.com/conheciencia/
https://www.instagram.com/ciencia.brasileira/
https://www.instagram.com/ciencianarua/
https://www.instagram.com/mergulhonacienciausp/
https://www.instagram.com/coupleinscience/
https://www.instagram.com/rolecientifico/

Páginas no Facebook de divulgação científica:

https://www.facebook.com/redecomciencia/
https://www.facebook.com/marchapelacienciasp/
https://www.facebook.com/JornalCiencia/
https://www.facebook.com/ComCienciaOficial/
https://www.facebook.com/AcervoCiencia/
https://www.facebook.com/nuncavi1cientista/
https://www.facebook.com/usponline
https://www.facebook.com/dispersciencia/
https://www.facebook.com/alociencia/
https://www.facebook.com/mandakaru.ciencia/
https://www.facebook.com/InstitutoSerrapilheira/

Rádio USP tem programas e podcasts muito interessantes:
https://jornal.usp.br/radio/

Podcasts de divulgação científica:

Aqui neste link tem uma seleção de todos os podcasts que eu ouvi falar de divulgação científica, porém ainda não experimentei todos eles: https://player.fm/pt/featured/science

Recomento ainda o Mamilos Podcast que, apesar de não ser de divulgação científica, sempre traz especialistas para sua discussão. É como se fosse uma pessoa leiga que, tendo assumido sua ignorância, tenta compreender as questões e qualificar o discurso, de forma a construir opiniões fundamentadas sobre diferentes temas. https://www.b9.com.br/shows/mamilos/

Eng. de Produção pela UERJ, mestre e doutoranda pela USP. Pesquisadora na iniciativa Bridge Ecosystem. Linkedin: lorennafleal

Eng. de Produção pela UERJ, mestre e doutoranda pela USP. Pesquisadora na iniciativa Bridge Ecosystem. Linkedin: lorennafleal